Bento Soares Dias

Apontamentos

As Vozes na minha cabeça

Divagações sobre a resistência do "Ser"

Existe uma multidão de vozes na minha cabeça.

Não há como negar.

Chegam sem avisar e partem sem dizer porque vieram.

Chamam os fantasmas escondidos, os pensamentos que tentei esquecer,

E continuam assim, sempre.

A inutilidade da minha cabeça, sim inútil e indisputavelmente vazia, não tem força para as expulsar.

Escondo-me, como o meu pai fazia,

Debaixo da cabeceira, na esperança de que partam,

Mas permanecem e teimam em clamar por mim.

Levanto-me, meio ensonado, e dirijo-me ao convés,

Onde o mar, lá em baixo, reclama por mim,

Assim como um apelo do Além.

Resisto o quanto posso.

Resisto há muito tempo, mas sei que um dia não terei forças para combater as vozes do passado.

Almas penadas que não conheci, mas que me conhecem,

Sabendo da fraqueza das minhas emoções.

Por isso, quem sabe, a minha cabeça navegue pelas ondas do mar,

Completamente à deriva.

Ao sabor do vento, ao sabor das correntes,

“Manda-te”, dizem as vozes.

“Estamos aqui”, insistem, numa sonoridade calma e apelativa.

“Não”, grito-lhes, ouvindo a minha voz pelo vazio da noite,

Ao longo desse mar traiçoeiro, abafando o som das hélices do navio. 

Mas o mar, assim como as vozes, são mais fortes que eu, e por isso, sei bem, um dia não resistirei ao seu chamar.

Por hoje, volto ao beliche do meu camarote e tento dormir,

Ansiando pelo amanhecer e temendo, mais uma vez, a noite escura, os sonhos perdidos, as vozes na minha cabeça.

 

27 de outubro de 2026, um dia inexplicavelmente triste.

Desenho a lápis. BSD

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