Bento Soares Dias

Apontamentos

Biografia de um morto - Parte I

Como se alguém conseguisse escrever a sua biografia após a sua morte!

Nota prévia:

Dizem que todos temos uma história para contar. O protagonista desta resolveu fazê-lo depois de morrer.

Biografia de um Morto é um conto publicado por episódios, em que um defunto, livre das preocupações da vida, mas não das da morte, decide contar aquilo que lhe aconteceu antes e depois de passar desta para melhor.

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Parte I

Dizem que, quando se morre, se vê uma luz branca ao fundo de um túnel. Não foi isso que me aconteceu.

Quando morri, lembro-me muito bem, não havia luz devido a um corte de energia numa das fases da casa onde vivia. Portanto, estava escuro como breu e a minha mãe tinha ido procurar uns cotos para iluminar a cozinha, porque eram horas da janta.

Lembro-me muito bem, estava sentado na mesa da cozinha a aguardar o jantar e ouvia-se o mar nas suas constantes “estaladas” na praia. Estava rabiosa.

A minha mãe mal saberia que na procura dos cotos não mais veria o filho com vida.

Já velha e eu solteirão, como poderíamos adivinhar que a genética estava prestes a fazer das suas.

O meu pai não estava, andava bem longe no mar. Apesar de velho continuava agarrado às ondas, sempre o azul infinito que o enfeitiçava, que o arrastava, muitas vezes para a amurada do grande barco.

Mas, na cozinha, sentando na velha mesa, senti um aperto no coração e, sem forças para um último grito pela minha mãe, tombei para o lado, atingindo o chão com tal força, nem sei quanta porque, na verdade, já estava morto.

Subi de imediato a outra dimensão e parti. Já não via a escuridão nem sentia o banco onde segundos antes estava sentado.

Jazia, agora, no chão, ancorado na velha carpete da cozinha, sozinho, inerte e a arrefecer.

A questão da luz não sei, como disse, se existe, agora que um morto ouve, lá isso ouve. Não duvidem.

Ouve, porque ouvi os gritos estridentes da minha mãe a chamar o meu nome, a clamar aos céus. Socorro, ó da guarda... ai que desgraça, filhe, à filhe, acorda, acorda.

Tanta foi a gritaria que os vizinhos vieram acudir e clamar, o que era uma prática comum, para que eu não tivesse partido, como se um dia não tivéssemos todos de partir, de deixar esta vida terrena e seguir um caminho que até ali desconhecia.

A confusão era de tal ordem que, mesmo depois de morto, me começou a doer a cabeça!

Percebi que a Morte me reclamou e que as mulheres que se juntaram na casa da minha mãe prantavam de tal forma afinada que mais pareciam o Coro de Santo Amaro de Oeiras.

Bom, a situação lá em baixo era esta; confusa, completamente descontrolada, plena de abraços fortes de conforto e de dicas como por exemplo, a típica “vai chamar o Silvino”, “uma urna bonita porque ele merece, coitadinho” …etc. e tal.

Continua...

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